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quinta-feira, 13 de outubro de 2011




A minha Alexandrina figura eras tu.
Quando te passeavas solitário
pelas ruas que te conduziam
aquela cervejaria de bairro
onde ninguém te conhecia
e onde podias fazer batota
bebendo o ouro liquido.


Eras muito mais poeta
naquela altura
em que a tua fraqueza oculta
te fazia tão frágil e no entanto
altíssimo a meus olhos
e talvez, possívelmente, aos olhos de Deus.




copyright@mariahenriques-2002//2006


canto recente



no canto onde escrevo
existe a música.
uma música doirada
que nem sei se é feliz.
a minha cabeça ecoa
no silêncio
com aquele sangue todo
que chega às mãos,
na palpitação
dos nervos
e dos rios vermelhos
que se transformam em rios
azuis,
quando a caneta risca
o papel,
e nascem letras.

domingo, 15 de maio de 2011

antifonia




POEMA DESGARRADO. ANTIFONIA.


.



não tenho sinfonia para esse poema.
elas as notas, fugiram em todas as direcções quando falaste nela.
a vibrante cor das pétalas
o acentuado dos dentes
a cabeleira fulva; vulva?
o verde lagarto nos olhos frios de serpente; ente?
não me seduziram.

ela apareceu no café lá ali ao pé
do jardim - recordas? eu fugi - coração acelerado danado escorraçado 
sombrio? - ao frio da tarde que adivinhava tempestade.

a sinfonia escapou-se escapuliu-se escondeu-se; da chuva?
e tu ficaste esmagado pelas patas dela , a assassina das almas.
vampírica sombra , a dançarina dos tons em rosa pastel; que pincel,
aquele olhar apagado com que quiseste partilhar o meu.
essa tua ambição delirante
num rompante a fustigar a emoção - trovão?
quando falaste nela e no nome, esse acidente verbal com que um dia ela foi
baptizada; antes não fora que ele há seres que é melhor nem falar neles
 quanto mais dar~lhes com as sagradas águas na moleirinha, - não.

não tenho sinfonia para esse poema.
nem memória de nota ou de cor que te valha , agora que ela a sombra
dessa terrível esfinge egipcia te assombrou. 
perdido como ficaste nessa miragem,deixaste fugir o real;
o sol e a lua , a língua e o beijo, deixaste a noite descer
sobre lençóis roídos pelo tempo e ficaste sem o meu som; 
o tom? com que te enleavas e gemias.

a sinfonia , essa foi-se . perdeu-se no polo norte, gelada.
ela a fulva, uma vulva? por onde andará agora?
e tu meu amor perdido na noite dos infernos? por onde andarás agora.
não. já não tenho sons para essa sinfonia. rasga o poema.




                                                                      poemas /ilustrações: © Maria Henriques 2011 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

sussurro


Espera,
escuta esse sussurro,
esse momento de silêncio
e então
ouve
o ruído incrivel
dessa borboleta
um trovão de pétalas e
espíritos.


Voar
dançando
com o toque suave
de uma pétala perdida
da flor
e depois das lágrimas
um sorriso.
Após um momento breve
de paz e asas brancas.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

o que queres?


o que queres? viajar?
andar no mar ? voar?

as coisas são como elas são e nas viagens só a arte do possivel
permanece. para além dos rostos que fixamos ficam as paisagens da natureza que nunca vimos;
de tudo aquilo que nunca tocámos nem olhámos e que jamais descobriremos.

o que queres? deslizar?
tocar no ar até te perderes na paixão?

para além das fronteiras o imaginário templo onde se escondem os arcanjos,
esses que nunca veremos , a brincar devagar com o tempo e o espaço, as asas como laços, eternos a dançar no coração.


-- da viagem que desejas apenas a arte do possivel ficará. o resto , os pequenos passos
a dança até a música, tudo isso se perderá que a alma é leve e a bagagem se perde  pelo peso.
por dentro dos labirintos das horas ficarás tu apenas, guardando o rosáceo botão da vida que um dia foste. --


0 que queres? a vida não é só tua
.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

estás morto ? - ( evocação )


a faca rasga a água
fere, separa o líquido.
na transparência o grito.
o sangue.

peixes voando para fora,
no estio as ondas também se mexem
e molham a faca
que rasga o vestido translúcido; nas margens
o verde toca o azul.
a faca cai ensanguentada, no rio.

-- está morto. - dizes tu.
-- está morto? - digo eu
que não acredito nisso, ainda agora vi a tua sombra abrindo
o frigorifico.
--o carapau frito, o copo de tinto
a alfazema na rua.uma borboleta a esvoaçar no teu rosto.
- estou morto . - dizes tu.
- e eu não acredito.



( para o antónio tavares manaças )

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

existem dias onde o ouro nao





















existem dias onde o ouro não chega

a brilhar.
dias parados no tempo,
cinzentos
cinzelados pela mão potente do vento
onde não há lugar para a memória.

dias
despojados de glória,
dias negros,
cheios de buracos onde poeira deixa cair o corpo e o
espírito.

ó fosse eu capaz do vôo órfico
sobre as águas
desmedidamente abertas sobre o precipicio.

estes dias
nomes,
pesadelos embrulhados em papel celofane,
dias perdidos da imagem limpida de um toque de amor

são os dias em que janelas se fecham sobre os sonhos
dias tristes, no mais triste dos vácuos
onde apenas nos resta o silêncio.



( à memória do marcelino vespeira )

quinta-feira, 27 de março de 2008

paris


paris já não é o que era.
já não subsiste aquele perfume
brut que enlouquecia quando me davas a mão
e não mais a leve inspiração trazida pelo
filme a preto branco que rodaste quando jovem cão.


( lá dizia o autor que a juventude é que nos salva )


agora não, já passou tudo a história
e paris está envolvida em meios tons de cinzento
com brumas perdidas
e árvores despidas pelo vento. foi-se o desejo de
café e croissants pela manhã,
foi-se o amor ás artes e ás letras. partiste de vez
com a cabeça inclinada para o sono eterno.
a vida só nos traz dores e enganos podes crer.


ilusões de grandeza falecem,
desaparecem como todos os sonhos
e os nós que atamos são roídos pelo tempo
seja qual for a matéria de que forem feitos.
não; paris ja era e não há arcos que a salvem da monotonia.


falta-me o teu gesto. a tua pintura.
falta-me a vontade de olhar para o futuro.
tudo á minha volta se parece com uma côdea de pão
velha e amarga e nem há volta a dar-lhe;
a tua morte levou todos os sabores
e a cor do céu que antigamente me parecia azul
é puro breu agora,sem andorinhas nem encanto.


só me tocam memórias do tempo em as ruas eram a tua imagem
e não; o paris que foi,  já não é o que era.
desapareceu nesse dia de breu em que partiste, cabeça inclinada no peito, para sempre apagada a tua imagem na terra.


( para o eduardo luis )

quarta-feira, 26 de março de 2008

ilhas é fatal




estas só


a ilha onde vives afunda-se lentamente
nas águas escuras de um oceano oculto,
as palmeiras já não são o que eram
jangadas são impossiveis agora
resta-te a esperança
e a dança quase inútil com ondas e céus.
deus está a olhar para outro lado.


a ilha afunda-se
procuras onde outrora o porto seguro,
os barcos de pesca, os navios
mas já não existem, partiram antes de ti
antes do vendaval e das torrentes de lágrimas.
impossiveis agora, os sonhos de outrora
estão perdidos por dentro de pedras e calhaus.


perdido nas sombras de edificios
a desmoronar-se; estás só
as figurinhas de oiro que iluminaram os jardins
são agora pó, as ondas levaram o que resta
da memória para onde não se sabe
talvez para perto das estrelas
que olham com um pequeno sorriso por dentro do brilho.


a ilha afunda-se;
apenas um pequeno cometa
disso dará o sinal.


olhar os céus de nada te servirá.




(à memória do antónio gancho )

uma rosa apenas



uma rosa anuncia a madrugada,
brilhante labirinto, seda pura
trazendo no perfume que se espalha
toda uma sinfonia de ternura

é uma rosa apenas, simples quieta
a que os meus olhos contemplam silenciosos
mas vejo através dela o mundo inteiro
suavizado por tons maravilhosos,

na manhã anunciando pratas,
dançam raios de sol nos tons da flor
que solitária me anuncia o amor
dançando em cada um dos aromas que exala

e sinto no coração uma alegria
profunda e docemente perfumada
na cor dessa flor tocando o dia
vejo a luz de um amor nobre, uma alma amada.


terça-feira, 25 de março de 2008

me and myself

segunda-feira, 3 de março de 2008

poema para as crianças das guerras



crianças gritam
estendem as mãos para o vazio
choram;

crianças de olhos
espantados
de olhos tão abertos
ao terror
que nos atravessam o corpo
as mesmas dores, nessas dores que podemos ver
estão esses pequenos seres devorados
pelas sombras

lágrimas de sangue
nos olhos de crianças
que choram
enquanto os outros
falam, discutem
ou escrevem na areia dos silêncios
adivinhas inúteis
lançadas ao vento.

enquanto o sangue corre
crianças chamam
mas ninguem as ouve;

e elas gritam
e choram
e olham
e morrem
ao longe.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

o silêncio das conchas



encosta o ouvido
ao silêncio
lá onde o mar se ouve
batendo por dentro
das estrelas
e sente apenas
esse som

o bater do coração
de conchas fabulosas
batidas pelo sal e pelas ondas.

e lá onde todas as marés
se encostam ao horizonte
ouve a música enrolada nas areias,
encosta o sono ao sonho
e no silêncio das conchas silenciosas
escuta a música de estrelas

e ouve.




( para o luiz pignatelli )

domingo, 10 de fevereiro de 2008

uma palavra verde





O teu sexo verde jasmim
que emerge da terra do
teu seio
jasmim
resplandece
tocado pelo sol.
De ti flor
vira a luz perfumada
e sensivel
uma tonalidade nova
impossivel
acarinhada no profundo
calor
que reanima.
E o teu sexo verde
jasmim

ha-de tocar o mais fundo
principio
quando emergir da terra
do teu seio jasmim
tocado pelo sul da vida.

esperança



a minha esperança é a liberdade
que tenho
de fazer poemas com agulha
e de os cozer ao peito da minha
pele
ah fosse eu um mestre de agulha
e linha.

criar poemas cozidos
como na alfaiataria
se cozem devagarinho os fatos
a pronto e por medida
e ter o cuidado
de os talhar a preceito
para nao me descairem na rua
e nao me deixarem tudo a nú
aos olhares dos passeantes
da poesia.




Fantasma Gongórico





eu acendo os olhos na fogueira
solar
que acende na lua os raios
de candeia,
e se porventura
na aventura da noite
vejo passar as sombras dos cometas
alucinantes
que preenchem os sonhos,
não me assusto,
pois vejo claramente
a cauda encharcada nos tons
do universo
incandescente
e se iridiscentes
vejo ao longe as estrelas
de escamas alongadas
como caudas de peixes
espelho-as
nos meus olhos
e longe,
figuras atónitas de arcanjos
chamam-me
e eu canto-lhes.




(para o herberto helder )

( dedicado ao cafe montecarlo )






o café ao fundo
os passos os ruídos
de fundo
o fumo.
as noites e o café
com os velhos
a roerem devagar
as raparigas
que passavam
com pernas redondas.

e os amigos.
os amigos
a marulharem segredos.





( num dia qualquer de 1973 )

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

a tua voz



a tua voz acende no sol
o desejo de iluminar a alma
dá o perfume matinal ás flores
dança nas manhãs a música das valsas,

toca nos lugares onde o escuro se esconde
faz brilhar o sonho, enternece acalma,
oferece a tudo e a todos a memória doce
de carinho e amores, de futuro e força

e flutua simples acima de nuvens
tocando a pureza que ilumina a vida.




segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Luiz Pacheco - Quer se goste dele ou não




O Luiz Pacheco fez oitenta anos ha uns tempos e tal.
Meu Deus;como o tempo passa é a frase trivial que apetece dizer.


Vi o programa de aniversário na televisão que isto das topo geografias
limitam um bocado.
O que me apetecera seria talvez a visita (como no tempo do
Barro) Arrancar-lhe umas palavritas ,trazer-lhe outras; oferecer-lhe algumas
memórias com muita ironia lá dentro, algumas piscadelas de olho
cúmplices e bem ou mal dispostas.
Mas vi logo pelo filme que ao Pacheco não lhe apetecia a fala.
Ou apetecia, mas não havia tempo de acção.




O Luiz, goste-se dele ou não,tem uma virtude que faz dele o que
é , um ser com um toque diamantino de ser livre e espacial que traz as
coisas em que toca a tal diferença e o respeito para com a obra alheia.




Vivemos alguma coisita em conjunto.
Digo Conjunto porque gosto do som da palavra e porque também a idea de
conjunto define muito do que ele foi como editor e autor.
Com o Pacheco nada se esquece ;ele traz-nos através da sua escrita a
memória de um tempo que muitos gostariam que não houvesse existido
mas que existiu e podemos também dizer ainda existe e não só na
memória de alguns.
Em conjunto dizia eu; fizemos alguma coisita juntos.
Rimos muito e bem.
Tão bom , porque a gargalhada ainda é a melhor maneira de se manter a
gente na vertical e afaga e apaga muitas desilusões.


Amámos muito.Os amigos que se atravessaram no caminho e nos trouxeram
também muito de riso e das tais ilusões.
Alguns já ficaram pelo caminho ; guarde-se deles a memória e o apreço
pelo que nos deram.


O nosso Pacheco--quer se goste dele ou não--é um tipo de amores.
E apesar das manápulas voadoras com que desanca aquilo que nos outros
lhe parece mal,tem dentro do olhar aqueles lampejos ternurentos que só
quem lhos conhece adivinha.


Fez anos o Luiz e eu fiquei a ver.
Os amigos ,a evocação do passado; algumas memórias onde o burlesco
azedo se misturava ao humor de uma vida recheada de tristezas e
alegrias onde a aventura foi sempre predominante.Uns fizeram-me rir
outros fizeram-me sorrir; alguns nem por isso.


O filme era bem bom.
Gostei de ver o Paulo.
Inteligente e digno.Capaz de dizer o que lhe ia na alma com uma
limpidez e uma pureza de estilo que me impressionaram.
Filho de peixe....




E gostei de me lembrar.No meio daquela luz a preto e branco quase que
vi todos os fantasmas luminosos de sorriso irónico e olhar piscante de
cumplicidades.
A Natália ,o Pignatelli, o Dácio,o mano Forte e todos os que mudaram de sítio.
Ah as memórias ; que bela maneira de se ir a gente despedindo.


Gostei daquela festa de anos televisiva.
Gostei de ver o Saramago, amigo de ontem e de sempre que não faltou apesar das provocações eternas com que o Pacheco o brindou ao longo dos anos, o nosso para sempre presidente Soares
que nunca na vida falhou a um amigo estivesse ele onde estivesse; gostei das histórias,das ironias flutuantes dos toques e dos arremeços.
Se o Pacheco teria sido homo? Se se teria dado a aventuras
marítimoeroticoeróico nocturnas?..


Sei lá!


Conheço o Pacheco vai para mais de quarenta anos.
Homens não dei por isso;algumas mulheres sim, vi que andavam com ele e nem sempre
rapariguinhas simples ou iletradas a quem ele terá ou não ensinado as
primeiras letras de um alfabeto qualquer.


Que tem a vidinha privada dos artistas que ver com a sua obra?
A velha pergunta de sempre sobre o ovo e a galinha.
Para mim o que contará sempre é a obra.
O que resulta da misturangada feliz ou infeliz a que na verdade se
resume a nossa vida.
Aquilo que fomos capazes de fazer com tudo isso .
O que fomos ou não
capazes de criar.


Quanto ao Pacheco ( que começou por dizer que havia sido editor e que
agora é um fantasma) devo dizer dele o seguinte:
Tem ainda dentro do olhar e para lá das lentes grossas onde sempre
escondeu o que ele diz ser a miopia, o mesmo lampejo de ternura
divertida de alguém que conhece da vidinha todos os segredos.


Se é um fantasma não sei.
Sei que está vivo como nunca e isso é que é bom.
Parabéns ao Luiz Pacheco então.
Por uma vida vivida com a coragem de se ser único e original.


Quer se goste dele ou não.

11 setembro 05
MH (maria henriques (mar ) 

o dia em que o luiz morreu

"Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal. É uma frase do Manuel da Fonseca. Para o Manuel acabou, coitado. Ele caiu de uma escada abaixo, os amigos estavam à espera dele no café, ele não aparecia, foram lá a casa dele, e deram com ele inanimado. Depois ficou em coma profundo e morreu daí a uns 8 dias, talvez.
Isto [o lar] não é uma casa alegre. Não pode ser. É o terceiro lar onde estou e já sei que não há hipótese de arranjar melhor. Agora, para pagar isto é que me vejo um bocado aflito, porque eu não tenho dinheiro que chegue para isto. Como é que faço? Olhe, faço os possíveis. Isto custa para cima de mil euros por mês. O que eu recebo não dá para estar descansado. Tenho uma situação muito incerta."


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terça-feira, 20 de novembro de 2007

Nature

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Fantasma



Truth


Suddenly
one touch
of  ice
revealing the all truth.
The black moon is smiling;
far from my road
those magic ancient hopes.

All the ancient spirits
are gone only a ghost is smilling.
The Sun is dying
the black spirit is dancing.
Fair well my love goodbye.

fantasma 1




Vapours shadows
liquid symbols
of lonely places
and yet
even there we can find some
light.Not the heavens light of course
but that strange yellow tone
of clouds after the storm,
those special clouds
like dark souls
dancing all the way
to hell falling inside that
liquid  empty place where
no one can find
the peaceful smile of God.
We can find some light there yes.
But not the kind of light
of diamonds or gold. 
Only dark vaporous faces
are shinning there. Like ghosts.



espanta espirito

circo 2



o circo esta na cidade tragam as flores
para distrair as mascaras que sorriem loucas.
deambulaçoes girando por cima da luz
os leoes saltam garras de ouro rasgando o ar
crianças ainda esperam a lua.


pudesse ser eu o contorcionista
girar o torso numa uma visao a saltitar
por entre abraços nua.gritos que alegria.
muito tempo para viver ate a morte se estender ao comprido
no chao e tudo ficar muito quieto.ritos.
sombras afagam devagar as cores
saltimbancos de outrora rufam os tambores
coraçao de ouro, coraçao de prata coraçoes
o circo esta na cidade e as mascaras saltam
enquanto as tendas afagam a noite.

o circo




o circo acendeu as suas luzes
o olhar incendiado da plateia
iluminou-se cedo de alegria, doce mel de colmeias
colhido pelas musas.

trapezios voaram
acrobatas saltaram
e todas as crianças fascinadas
enrolaram para si
grinaldas de flores
enquanto riam cheias da cor da dança.
sorrisos brilharam como diamantes
e laços e palhaços enrolaram os sonhos

o circo chegou a cidade
o sol enrolou-se nas suas cores
e todas as crianças fascinadas
iluminaram a vida com os sons do amor
para esquecer as sombras e as grutas do medo.





na despedida



poetas poemas doces palavras dor
acres fonemas metaforas de infernos
simbolismo de dores ventos incertos
geladas alegorias do amor

noites apagadas desespero
tudo perdido em temporais de inverno
letras vogais e sons de rumo cego
 consumaçao de tons em puro negro

movimento de dores em gesto aflito
livros desfolhados na paixao
horas perdidas no meio desse grito
partido para sempre o coraçao.





OFICIO



o poeta e o pintor das palavras
pinta com letras no ceu do seu papel
poe todas as estrelas
iluminando o tempo

em rituais de ironia e tinta
suor e sangue.
chama cores as suas dores,
distribui no poema doçura e fel
anunciando visoes paradisiacas
para depois chamar arcanjos 
que caem como setas 
enlaçando o poema com o nascer dos dias.









A Figueira

 
 



DEBAIXO DA FIGUEIRA
COMEM-SE TODOS OS FIGOS DO VERAO.
OS AMANTES SENTADOS
NOS GRAOS VERDES DA TERRA
ENROLAM-SE. OH COBRAS PEQUENAS.
E DEPOIS SABOREIAM O DOCE MEL
DOS FIGOS ANTIGOS
DOCE MEL DE COLMEIAS
E AS ABELHAS VOAM
A RODA DO POLEN DOS AMORES DAS FLORES.

QUE OLHAM.

as mãos do teu abraço



sopra na noite uma brisa de estrelas
no céu totalmente espelhado
brilha a lua.
ao longe cães ladram
rompendo as notas do silêncio
rodeia-me a cintura um cinto engastado de ternura.

adoro as mãos devoradoras nesse abraço
nesses teus lábios o fogo que consuma;
o vento no rosto, as sedas no afago
o silêncio gracioso a deslizar na rua.

sopra na noite o vento
e as caricias voam
as sombras que tocam a janela
estão perdidas no tempo
e tu e eu viajamos no sonho
onde as visões de arcanjos nos contemplam.


adoração



adoro o perfume embriagador
dos óleos,
a leveza da tela
adoro a pequena ironia que voa
uma seta no alvo
e a provocação nocturna de uma estrela
a acordar o silêncio.
e adoro a atenção do dia
as sinfonias
as cores embrulhadas no teu olhar
e na minha pele vulcões de lava fria.

domingo, 18 de novembro de 2007

imagem luz e sombra

equilibrio?

le chapeaux de la vieille dame

3 almas

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A minha Alexandrina figura eras tu.
Quando te passeavas solitário
pelas ruas que te conduziam
aquela cervejaria de bairro
onde ninguém te conhecia
e onde podias fazer batota
bebendo o ouro liquido.


Eras muito mais poeta
naquela altura
em que a tua fraqueza oculta
te fazia tão frágil e no entanto
altíssimo a meus olhos
e talvez, possívelmente, aos olhos de Deus.




copyright@mariahenriques-2002//2006


canto recente



no canto onde escrevo
existe a música.
uma música doirada
que nem sei se é feliz.
a minha cabeça ecoa
no silêncio
com aquele sangue todo
que chega às mãos,
na palpitação
dos nervos
e dos rios vermelhos
que se transformam em rios
azuis,
quando a caneta risca
o papel,
e nascem letras.

antifonia




POEMA DESGARRADO. ANTIFONIA.


.



não tenho sinfonia para esse poema.
elas as notas, fugiram em todas as direcções quando falaste nela.
a vibrante cor das pétalas
o acentuado dos dentes
a cabeleira fulva; vulva?
o verde lagarto nos olhos frios de serpente; ente?
não me seduziram.

ela apareceu no café lá ali ao pé
do jardim - recordas? eu fugi - coração acelerado danado escorraçado 
sombrio? - ao frio da tarde que adivinhava tempestade.

a sinfonia escapou-se escapuliu-se escondeu-se; da chuva?
e tu ficaste esmagado pelas patas dela , a assassina das almas.
vampírica sombra , a dançarina dos tons em rosa pastel; que pincel,
aquele olhar apagado com que quiseste partilhar o meu.
essa tua ambição delirante
num rompante a fustigar a emoção - trovão?
quando falaste nela e no nome, esse acidente verbal com que um dia ela foi
baptizada; antes não fora que ele há seres que é melhor nem falar neles
 quanto mais dar~lhes com as sagradas águas na moleirinha, - não.

não tenho sinfonia para esse poema.
nem memória de nota ou de cor que te valha , agora que ela a sombra
dessa terrível esfinge egipcia te assombrou. 
perdido como ficaste nessa miragem,deixaste fugir o real;
o sol e a lua , a língua e o beijo, deixaste a noite descer
sobre lençóis roídos pelo tempo e ficaste sem o meu som; 
o tom? com que te enleavas e gemias.

a sinfonia , essa foi-se . perdeu-se no polo norte, gelada.
ela a fulva, uma vulva? por onde andará agora?
e tu meu amor perdido na noite dos infernos? por onde andarás agora.
não. já não tenho sons para essa sinfonia. rasga o poema.




                                                                      poemas /ilustrações: © Maria Henriques 2011 

sussurro


Espera,
escuta esse sussurro,
esse momento de silêncio
e então
ouve
o ruído incrivel
dessa borboleta
um trovão de pétalas e
espíritos.


Voar
dançando
com o toque suave
de uma pétala perdida
da flor
e depois das lágrimas
um sorriso.
Após um momento breve
de paz e asas brancas.


o que queres?


o que queres? viajar?
andar no mar ? voar?

as coisas são como elas são e nas viagens só a arte do possivel
permanece. para além dos rostos que fixamos ficam as paisagens da natureza que nunca vimos;
de tudo aquilo que nunca tocámos nem olhámos e que jamais descobriremos.

o que queres? deslizar?
tocar no ar até te perderes na paixão?

para além das fronteiras o imaginário templo onde se escondem os arcanjos,
esses que nunca veremos , a brincar devagar com o tempo e o espaço, as asas como laços, eternos a dançar no coração.


-- da viagem que desejas apenas a arte do possivel ficará. o resto , os pequenos passos
a dança até a música, tudo isso se perderá que a alma é leve e a bagagem se perde  pelo peso.
por dentro dos labirintos das horas ficarás tu apenas, guardando o rosáceo botão da vida que um dia foste. --


0 que queres? a vida não é só tua
.


estás morto ? - ( evocação )


a faca rasga a água
fere, separa o líquido.
na transparência o grito.
o sangue.

peixes voando para fora,
no estio as ondas também se mexem
e molham a faca
que rasga o vestido translúcido; nas margens
o verde toca o azul.
a faca cai ensanguentada, no rio.

-- está morto. - dizes tu.
-- está morto? - digo eu
que não acredito nisso, ainda agora vi a tua sombra abrindo
o frigorifico.
--o carapau frito, o copo de tinto
a alfazema na rua.uma borboleta a esvoaçar no teu rosto.
- estou morto . - dizes tu.
- e eu não acredito.



( para o antónio tavares manaças )

existem dias onde o ouro nao





















existem dias onde o ouro não chega

a brilhar.
dias parados no tempo,
cinzentos
cinzelados pela mão potente do vento
onde não há lugar para a memória.

dias
despojados de glória,
dias negros,
cheios de buracos onde poeira deixa cair o corpo e o
espírito.

ó fosse eu capaz do vôo órfico
sobre as águas
desmedidamente abertas sobre o precipicio.

estes dias
nomes,
pesadelos embrulhados em papel celofane,
dias perdidos da imagem limpida de um toque de amor

são os dias em que janelas se fecham sobre os sonhos
dias tristes, no mais triste dos vácuos
onde apenas nos resta o silêncio.



( à memória do marcelino vespeira )

paris


paris já não é o que era.
já não subsiste aquele perfume
brut que enlouquecia quando me davas a mão
e não mais a leve inspiração trazida pelo
filme a preto branco que rodaste quando jovem cão.


( lá dizia o autor que a juventude é que nos salva )


agora não, já passou tudo a história
e paris está envolvida em meios tons de cinzento
com brumas perdidas
e árvores despidas pelo vento. foi-se o desejo de
café e croissants pela manhã,
foi-se o amor ás artes e ás letras. partiste de vez
com a cabeça inclinada para o sono eterno.
a vida só nos traz dores e enganos podes crer.


ilusões de grandeza falecem,
desaparecem como todos os sonhos
e os nós que atamos são roídos pelo tempo
seja qual for a matéria de que forem feitos.
não; paris ja era e não há arcos que a salvem da monotonia.


falta-me o teu gesto. a tua pintura.
falta-me a vontade de olhar para o futuro.
tudo á minha volta se parece com uma côdea de pão
velha e amarga e nem há volta a dar-lhe;
a tua morte levou todos os sabores
e a cor do céu que antigamente me parecia azul
é puro breu agora,sem andorinhas nem encanto.


só me tocam memórias do tempo em as ruas eram a tua imagem
e não; o paris que foi,  já não é o que era.
desapareceu nesse dia de breu em que partiste, cabeça inclinada no peito, para sempre apagada a tua imagem na terra.


( para o eduardo luis )

ilhas é fatal




estas só


a ilha onde vives afunda-se lentamente
nas águas escuras de um oceano oculto,
as palmeiras já não são o que eram
jangadas são impossiveis agora
resta-te a esperança
e a dança quase inútil com ondas e céus.
deus está a olhar para outro lado.


a ilha afunda-se
procuras onde outrora o porto seguro,
os barcos de pesca, os navios
mas já não existem, partiram antes de ti
antes do vendaval e das torrentes de lágrimas.
impossiveis agora, os sonhos de outrora
estão perdidos por dentro de pedras e calhaus.


perdido nas sombras de edificios
a desmoronar-se; estás só
as figurinhas de oiro que iluminaram os jardins
são agora pó, as ondas levaram o que resta
da memória para onde não se sabe
talvez para perto das estrelas
que olham com um pequeno sorriso por dentro do brilho.


a ilha afunda-se;
apenas um pequeno cometa
disso dará o sinal.


olhar os céus de nada te servirá.




(à memória do antónio gancho )

uma rosa apenas



uma rosa anuncia a madrugada,
brilhante labirinto, seda pura
trazendo no perfume que se espalha
toda uma sinfonia de ternura

é uma rosa apenas, simples quieta
a que os meus olhos contemplam silenciosos
mas vejo através dela o mundo inteiro
suavizado por tons maravilhosos,

na manhã anunciando pratas,
dançam raios de sol nos tons da flor
que solitária me anuncia o amor
dançando em cada um dos aromas que exala

e sinto no coração uma alegria
profunda e docemente perfumada
na cor dessa flor tocando o dia
vejo a luz de um amor nobre, uma alma amada.


me and myself

poema para as crianças das guerras



crianças gritam
estendem as mãos para o vazio
choram;

crianças de olhos
espantados
de olhos tão abertos
ao terror
que nos atravessam o corpo
as mesmas dores, nessas dores que podemos ver
estão esses pequenos seres devorados
pelas sombras

lágrimas de sangue
nos olhos de crianças
que choram
enquanto os outros
falam, discutem
ou escrevem na areia dos silêncios
adivinhas inúteis
lançadas ao vento.

enquanto o sangue corre
crianças chamam
mas ninguem as ouve;

e elas gritam
e choram
e olham
e morrem
ao longe.


o silêncio das conchas



encosta o ouvido
ao silêncio
lá onde o mar se ouve
batendo por dentro
das estrelas
e sente apenas
esse som

o bater do coração
de conchas fabulosas
batidas pelo sal e pelas ondas.

e lá onde todas as marés
se encostam ao horizonte
ouve a música enrolada nas areias,
encosta o sono ao sonho
e no silêncio das conchas silenciosas
escuta a música de estrelas

e ouve.




( para o luiz pignatelli )

uma palavra verde





O teu sexo verde jasmim
que emerge da terra do
teu seio
jasmim
resplandece
tocado pelo sol.
De ti flor
vira a luz perfumada
e sensivel
uma tonalidade nova
impossivel
acarinhada no profundo
calor
que reanima.
E o teu sexo verde
jasmim

ha-de tocar o mais fundo
principio
quando emergir da terra
do teu seio jasmim
tocado pelo sul da vida.

esperança



a minha esperança é a liberdade
que tenho
de fazer poemas com agulha
e de os cozer ao peito da minha
pele
ah fosse eu um mestre de agulha
e linha.

criar poemas cozidos
como na alfaiataria
se cozem devagarinho os fatos
a pronto e por medida
e ter o cuidado
de os talhar a preceito
para nao me descairem na rua
e nao me deixarem tudo a nú
aos olhares dos passeantes
da poesia.




Fantasma Gongórico





eu acendo os olhos na fogueira
solar
que acende na lua os raios
de candeia,
e se porventura
na aventura da noite
vejo passar as sombras dos cometas
alucinantes
que preenchem os sonhos,
não me assusto,
pois vejo claramente
a cauda encharcada nos tons
do universo
incandescente
e se iridiscentes
vejo ao longe as estrelas
de escamas alongadas
como caudas de peixes
espelho-as
nos meus olhos
e longe,
figuras atónitas de arcanjos
chamam-me
e eu canto-lhes.




(para o herberto helder )

( dedicado ao cafe montecarlo )






o café ao fundo
os passos os ruídos
de fundo
o fumo.
as noites e o café
com os velhos
a roerem devagar
as raparigas
que passavam
com pernas redondas.

e os amigos.
os amigos
a marulharem segredos.





( num dia qualquer de 1973 )

a tua voz



a tua voz acende no sol
o desejo de iluminar a alma
dá o perfume matinal ás flores
dança nas manhãs a música das valsas,

toca nos lugares onde o escuro se esconde
faz brilhar o sonho, enternece acalma,
oferece a tudo e a todos a memória doce
de carinho e amores, de futuro e força

e flutua simples acima de nuvens
tocando a pureza que ilumina a vida.




Luiz Pacheco - Quer se goste dele ou não




O Luiz Pacheco fez oitenta anos ha uns tempos e tal.
Meu Deus;como o tempo passa é a frase trivial que apetece dizer.


Vi o programa de aniversário na televisão que isto das topo geografias
limitam um bocado.
O que me apetecera seria talvez a visita (como no tempo do
Barro) Arrancar-lhe umas palavritas ,trazer-lhe outras; oferecer-lhe algumas
memórias com muita ironia lá dentro, algumas piscadelas de olho
cúmplices e bem ou mal dispostas.
Mas vi logo pelo filme que ao Pacheco não lhe apetecia a fala.
Ou apetecia, mas não havia tempo de acção.




O Luiz, goste-se dele ou não,tem uma virtude que faz dele o que
é , um ser com um toque diamantino de ser livre e espacial que traz as
coisas em que toca a tal diferença e o respeito para com a obra alheia.




Vivemos alguma coisita em conjunto.
Digo Conjunto porque gosto do som da palavra e porque também a idea de
conjunto define muito do que ele foi como editor e autor.
Com o Pacheco nada se esquece ;ele traz-nos através da sua escrita a
memória de um tempo que muitos gostariam que não houvesse existido
mas que existiu e podemos também dizer ainda existe e não só na
memória de alguns.
Em conjunto dizia eu; fizemos alguma coisita juntos.
Rimos muito e bem.
Tão bom , porque a gargalhada ainda é a melhor maneira de se manter a
gente na vertical e afaga e apaga muitas desilusões.


Amámos muito.Os amigos que se atravessaram no caminho e nos trouxeram
também muito de riso e das tais ilusões.
Alguns já ficaram pelo caminho ; guarde-se deles a memória e o apreço
pelo que nos deram.


O nosso Pacheco--quer se goste dele ou não--é um tipo de amores.
E apesar das manápulas voadoras com que desanca aquilo que nos outros
lhe parece mal,tem dentro do olhar aqueles lampejos ternurentos que só
quem lhos conhece adivinha.


Fez anos o Luiz e eu fiquei a ver.
Os amigos ,a evocação do passado; algumas memórias onde o burlesco
azedo se misturava ao humor de uma vida recheada de tristezas e
alegrias onde a aventura foi sempre predominante.Uns fizeram-me rir
outros fizeram-me sorrir; alguns nem por isso.


O filme era bem bom.
Gostei de ver o Paulo.
Inteligente e digno.Capaz de dizer o que lhe ia na alma com uma
limpidez e uma pureza de estilo que me impressionaram.
Filho de peixe....




E gostei de me lembrar.No meio daquela luz a preto e branco quase que
vi todos os fantasmas luminosos de sorriso irónico e olhar piscante de
cumplicidades.
A Natália ,o Pignatelli, o Dácio,o mano Forte e todos os que mudaram de sítio.
Ah as memórias ; que bela maneira de se ir a gente despedindo.


Gostei daquela festa de anos televisiva.
Gostei de ver o Saramago, amigo de ontem e de sempre que não faltou apesar das provocações eternas com que o Pacheco o brindou ao longo dos anos, o nosso para sempre presidente Soares
que nunca na vida falhou a um amigo estivesse ele onde estivesse; gostei das histórias,das ironias flutuantes dos toques e dos arremeços.
Se o Pacheco teria sido homo? Se se teria dado a aventuras
marítimoeroticoeróico nocturnas?..


Sei lá!


Conheço o Pacheco vai para mais de quarenta anos.
Homens não dei por isso;algumas mulheres sim, vi que andavam com ele e nem sempre
rapariguinhas simples ou iletradas a quem ele terá ou não ensinado as
primeiras letras de um alfabeto qualquer.


Que tem a vidinha privada dos artistas que ver com a sua obra?
A velha pergunta de sempre sobre o ovo e a galinha.
Para mim o que contará sempre é a obra.
O que resulta da misturangada feliz ou infeliz a que na verdade se
resume a nossa vida.
Aquilo que fomos capazes de fazer com tudo isso .
O que fomos ou não
capazes de criar.


Quanto ao Pacheco ( que começou por dizer que havia sido editor e que
agora é um fantasma) devo dizer dele o seguinte:
Tem ainda dentro do olhar e para lá das lentes grossas onde sempre
escondeu o que ele diz ser a miopia, o mesmo lampejo de ternura
divertida de alguém que conhece da vidinha todos os segredos.


Se é um fantasma não sei.
Sei que está vivo como nunca e isso é que é bom.
Parabéns ao Luiz Pacheco então.
Por uma vida vivida com a coragem de se ser único e original.


Quer se goste dele ou não.

11 setembro 05
MH (maria henriques (mar ) 

o dia em que o luiz morreu

"Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal. É uma frase do Manuel da Fonseca. Para o Manuel acabou, coitado. Ele caiu de uma escada abaixo, os amigos estavam à espera dele no café, ele não aparecia, foram lá a casa dele, e deram com ele inanimado. Depois ficou em coma profundo e morreu daí a uns 8 dias, talvez.
Isto [o lar] não é uma casa alegre. Não pode ser. É o terceiro lar onde estou e já sei que não há hipótese de arranjar melhor. Agora, para pagar isto é que me vejo um bocado aflito, porque eu não tenho dinheiro que chegue para isto. Como é que faço? Olhe, faço os possíveis. Isto custa para cima de mil euros por mês. O que eu recebo não dá para estar descansado. Tenho uma situação muito incerta."


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Nature

Fantasma



Truth


Suddenly
one touch
of  ice
revealing the all truth.
The black moon is smiling;
far from my road
those magic ancient hopes.

All the ancient spirits
are gone only a ghost is smilling.
The Sun is dying
the black spirit is dancing.
Fair well my love goodbye.

fantasma 1




Vapours shadows
liquid symbols
of lonely places
and yet
even there we can find some
light.Not the heavens light of course
but that strange yellow tone
of clouds after the storm,
those special clouds
like dark souls
dancing all the way
to hell falling inside that
liquid  empty place where
no one can find
the peaceful smile of God.
We can find some light there yes.
But not the kind of light
of diamonds or gold. 
Only dark vaporous faces
are shinning there. Like ghosts.



espanta espirito

circo 2



o circo esta na cidade tragam as flores
para distrair as mascaras que sorriem loucas.
deambulaçoes girando por cima da luz
os leoes saltam garras de ouro rasgando o ar
crianças ainda esperam a lua.


pudesse ser eu o contorcionista
girar o torso numa uma visao a saltitar
por entre abraços nua.gritos que alegria.
muito tempo para viver ate a morte se estender ao comprido
no chao e tudo ficar muito quieto.ritos.
sombras afagam devagar as cores
saltimbancos de outrora rufam os tambores
coraçao de ouro, coraçao de prata coraçoes
o circo esta na cidade e as mascaras saltam
enquanto as tendas afagam a noite.

o circo




o circo acendeu as suas luzes
o olhar incendiado da plateia
iluminou-se cedo de alegria, doce mel de colmeias
colhido pelas musas.

trapezios voaram
acrobatas saltaram
e todas as crianças fascinadas
enrolaram para si
grinaldas de flores
enquanto riam cheias da cor da dança.
sorrisos brilharam como diamantes
e laços e palhaços enrolaram os sonhos

o circo chegou a cidade
o sol enrolou-se nas suas cores
e todas as crianças fascinadas
iluminaram a vida com os sons do amor
para esquecer as sombras e as grutas do medo.





na despedida



poetas poemas doces palavras dor
acres fonemas metaforas de infernos
simbolismo de dores ventos incertos
geladas alegorias do amor

noites apagadas desespero
tudo perdido em temporais de inverno
letras vogais e sons de rumo cego
 consumaçao de tons em puro negro

movimento de dores em gesto aflito
livros desfolhados na paixao
horas perdidas no meio desse grito
partido para sempre o coraçao.





OFICIO



o poeta e o pintor das palavras
pinta com letras no ceu do seu papel
poe todas as estrelas
iluminando o tempo

em rituais de ironia e tinta
suor e sangue.
chama cores as suas dores,
distribui no poema doçura e fel
anunciando visoes paradisiacas
para depois chamar arcanjos 
que caem como setas 
enlaçando o poema com o nascer dos dias.









A Figueira

 
 



DEBAIXO DA FIGUEIRA
COMEM-SE TODOS OS FIGOS DO VERAO.
OS AMANTES SENTADOS
NOS GRAOS VERDES DA TERRA
ENROLAM-SE. OH COBRAS PEQUENAS.
E DEPOIS SABOREIAM O DOCE MEL
DOS FIGOS ANTIGOS
DOCE MEL DE COLMEIAS
E AS ABELHAS VOAM
A RODA DO POLEN DOS AMORES DAS FLORES.

QUE OLHAM.

as mãos do teu abraço



sopra na noite uma brisa de estrelas
no céu totalmente espelhado
brilha a lua.
ao longe cães ladram
rompendo as notas do silêncio
rodeia-me a cintura um cinto engastado de ternura.

adoro as mãos devoradoras nesse abraço
nesses teus lábios o fogo que consuma;
o vento no rosto, as sedas no afago
o silêncio gracioso a deslizar na rua.

sopra na noite o vento
e as caricias voam
as sombras que tocam a janela
estão perdidas no tempo
e tu e eu viajamos no sonho
onde as visões de arcanjos nos contemplam.


adoração



adoro o perfume embriagador
dos óleos,
a leveza da tela
adoro a pequena ironia que voa
uma seta no alvo
e a provocação nocturna de uma estrela
a acordar o silêncio.
e adoro a atenção do dia
as sinfonias
as cores embrulhadas no teu olhar
e na minha pele vulcões de lava fria.

imagem luz e sombra

equilibrio?

le chapeaux de la vieille dame

3 almas

 
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