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Sábado, 17 de Novembro de 2007

uma historia (in)vulgar ou a construçao de um mundo em 7 dias

 

(Para o Jacob)


Uma família feliz

(primeiro dia)
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-"As coisas são o que são, quer a gente goste ou não goste, as
famílias fazem muita falta!"
Dizia a mãe do Manel sempre que havia reunião lá em casa.Todos nós já
sabíamos que aquela frase seria o começo de um longo e repetido
discurso que de novo trazia apenas as interrupções e os enganos com
que a idade dela –já muito avançada –nos fazia perder sistematicamente
a paciência e dizer-lhe como sempre :
-" O quê mãe; não estamos a perceber nada do que está a dizer!"
Mas era assim que as reuniões decorriam e todos lá na família já
haviam aceitado há muito tempo que a mãe do Manel (meu delicado e
atencioso esposo) era a pessoa mais importante do clã e disso não
haveria nunca nenhuma dúvida.


O nosso casamento durava há anos. Todas as pessoas amigas e conhecidas
apostavam que aquele casamento havia sido feito no céu e a nossa vida
dividia-se entre festas em casa da mãe dele e reuniões na casa dos
amigos dele.
O meu marido era psiquiatra e amante do cinema; eu fazia da pintura a
minha vida e o cinema havia sido o ponto de união entre mim e
ele.Tinha sido de resto numa sessão de cinema em casa de um amigo
comum que havíamos trocado o primeiro beijo que na altura me parecera
arrebatador.

Naquele tempo faziam-se as sessões de cinema como se faziam bailes
para namoro privados - para não se correrem riscos de intromissão das
mãos alheias de funcionários pagos para policiar as vidas daqueles que
aparentassem mais liberdade do que aquela que era consentida pela
força de estado.
Eu, assim como a minha roda de amizades éramos todos da esquerda e
fazíamos do cinema e da poesia um estandarte de liberdades e desenvoltura.

Como muitos dos nossos amigos o casamento fazia-se entre pares e eu e
o meu marido fomos muito felizes durante os primeiros tempos do casamento.
Mas os filhos que havíamos desejado não tinham aparecido e o tempo
encarregou-se de nos rodear de esperanças perdidas as promessas que
se foram esquecendo com o rodar dos anos.
Talvez por isso, a velha mãe do Manel sentisse a necessidade de trazer
a inevitável frase acompanhando o discurso irredutível.
Sim, lá na dela as famílias faziam muita falta.e talvez tivesse razão;
mas por qualquer motivo eu parecia estar a afastar-me cada vez mais
daqueles conceitos e da vida em comum com o Manel.
E os dias corriam devagar e sem graça.
Ele afogava o meu desinteresse nas consultas e nas conversas com os
amigos; eu, nos passeios ao Algarve e nas telas que cada vez me
apetecia menos pintar.

Foi quando a Catarina me convidou para ir ao lançamento de um amigo que
me aconteceu pela primeira vez a ideia de que um livro seria o ideal
para me ajudar a transformar a rotina na minha vida fazendo alguma
coisa que me empolgasse a existência.

Os amigos da Catarina eram todos intelectuais e escritores e não seria
muito difícil conhecer alguém que quisesse editar alguma coisa desde
que tivesse o mínimo de
qualidade que eu nem duvidava, seria capaz de alcançar.

Propus-me então dedicar todo o meu tempo àquele novo sonho e retirei
do meu espaço de trabalho todos os elementos relacionados com o amor
anterior - a pintura.
Comprei resmas de papel, quase toda a tinta que havia no supermercado
e o novo objecto que passaria a ter um papel decisivo na minha nova
vida creativa.
Um computador lindíssimo, branco puro de écran quadrado e de bom tamanho.
Tudo estava a postos, a história ia começar...
A escrita impunha-se na minha vida como uma forma totalmente nova e
interessante
e os jantares com a família, os amigos do Manel e o cinema passaram a
ficar no plano mais afastado dos meus interesses. A distância entre
nós começava a impor-se lentamente.


Mas não é assim a vida?
Não se transformam todo os amores em desamor ou desinteresses?
A vida é um elemento que necessita da surpresa e do constante
envolvimento de todas as personagens ,se uma delas falha o todo acaba
inevitavelmente por se transformar também.E assim foi sem dúvidas que
eu depositei na minha esperança literária todos os sonhos anteriores
do meu casamento.

A minha nova vida trazia com ela novos interesses e pessoas diferentes
daquelas com quem me relacionava havia anos.Rapidamente me envolvi em
tertúlias literárias onde as opiniões inteligentes e as figuras
masculinas interessadas me envolviam como uma cortina de fumo.
A minha família ficava cada vez mais para trás.

O facto de não ter desenvolvido trabalho algum ou de nenhuma ideia ter
assaltado a minha inteligente cabeça ,sempre recheada de dúvidas sobre
estilos não me inquietava. Havia sempre quem estivesse a meu lado para
explicar que o trabalho de um escritor era misterioso e que a divina
musa só se acercava quando menos se esperava;assim fui ficando cada
vez mais envolvida em devaneios românticos e possibilidades
românticas e aventureiras.
A vida começava a mostrar-se bem mais excitante e feliz.
Fui começando a procurar ideias para o romance, alguma coisa que me
fizesse encontrar a alegria de uma história interessante e bem escrita
e atirava para
o computador frases atrás de frases, procurando um sentido para tudo o
que desejava pôr no papel.
Sentimentos ,emoções ,desejos.
Memórias de tempos passados ,algumas figuras já esmaecidas pelo
andamento do tempo e da vida.
Mas nada do que escrevia parecia fazer sentido e chegava ao fim do meu
dia de trabalho com um misto de desgosto e impotência. O meu talento
não parecia chegar para os meus voos criativos.
A pouco e pouco o silêncio entre mim e o Manel havia-se transformado.
Éramos agora invisíveis um para o outro.

Os meus romances com os homens do meu novo grupo se bem que fossem
inocentes do ponto de vista físico transtornavam a nossa vida deixando
a pouco e pouco as marcas irreparáveis do ciúme e da solidão.